quinta-feira, 21 de julho de 2011

- Acho que ele era corajoso.
No restaurante de manhã, primeiro ela ficou intrigada, depois confusa e, por fim, compreensiva.
E sua compaixão profunda a fez sentir um pouco da dor que ele deve ter sentido por ter mudado tanto seu mundo.
Sabia o que era nascer de um jeito e lutar contra ele constantemente.
Lutar dia após dia, negar os impulsos naturais o tempo todo, ordenar a si mesma para fazer isso porque... tinha de ser assim.
- Café? - o garçom lhe perguntou de manhã, com uma voz suave como a de uma mulher e ainda assim distintamente masculina.
A voz se enterrara no fundo de seu coração, onde tentou não deixar a emoção entrar.
Sentira tamanha empatia por ele que tentou sorrir, mas seus olhos se encheram de lágrimas.
Esse pobre homem deve ter enfrentado anos de dor.
- Por favor - respondeu.
Levantando os olhos, encontrou os do garçom e sorriu, mesmo pensando que ninguem levava a vida sem uma dor enorme.
- Mas você é corajosa. Fez coisas incríveis na vida.
- Não. Não como isso. Na verdade, nunca lutei por nada.
- Se pudesse fazer tudo de novo, pelo que lutaria?
Chantal parecia desconfortável na poltrona. Queria sair do avião. Queria afastar - se desse homem que lhe fazia perguntas difíceis e desejava respostas reais. Tinha sido um longo dia, mas não sabia como não responder a ele. Havia algo nele que a obrigava a responder.
- Felicidade.
- Falicidade?
- Nunca achei que seria tão ilusória. Sempre pensei que todos nós teríamos oportunidades iguais.
- E você não teve?
Nunca conversava com as pessoas dessa maneira, mas agora que começara a se abrir, parecia não poder parar. Era como se ele houvesse desencadeado uma tempestade dentro dela.
- Não sei o que deu errado. Eu me esforcei tanto para fazer a coisa certa, e sempre pensei que se tentasse o bastante, fosse boa, honesta, generosa e compassiva o bastante... se trabalhasse com afinco, descobriria aquela felicidade ilusória que os outros parecem ter. Encontraria a felicidade e...

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