Naquele tempo, o meu irmao Miguel estava preso em casa desde 1989, quando ele cometeu um crime gravissimo pra se defender de um cara que queria matar um amigo dele, assim dizia ele, e esse, como sempre, tomou as dores do amigo e acabou quase morrendo no lugar do amigo, que lhe foi grato durante um bom tempo da vida dele, pois o Miguel acabou matando pra nao morrer...
E pra nao ir preso na policia ele ficou trancado em casa pra nossa infelicidade.
E havia muitas discordancias e muitas brigas devido às divergencias dele com o meu pai e o meu irmao Marcos...
Mas, graças a Deus conseguimos sobreviver a esse fato de que o Miguel tava aqui em casa conosco, entao, realmente, corriamos perigo, muito perigo, ou de uma hora o meu pai se desentender com ele, ou vice versa, porque ele nao era nenhum santo nao, ou do Marcos, tambem se desentender com ele, ou vice versa, ou dele mesmo se desentender com todo mundo da familia, como havia se desentendido tempos atras com a Cleia, como eu ja relatei em capitulos passados.
Entao, ele sempre queria fumar, so que nao tinhamos como dar o cigarro a ele, e sustentar o vicio dele, entao a minha mae o fez trabalhar, colocando - o para fazer pipas, assim ela podia vende - los aqui na nossa lojinha e foi o que acabou acontecendo, e fomos comprar as folhas dos pipas, as varetas comuns e as varetas japonesas, entao, começou a sair cada pipa lindo que fazia gosto... E de diversas formas, um mais lindo do que o outro e colocamos na lojinha e aqueles pipas tinham uma tremenda saida, inclusive ate os de vareta japonesa, que eram os que saiam mais...
Vendiamos muito bem e os moleques vinham perguntando se tinha de vareta japonesa, entao, como saia mais e era mais trabalhoso pra fazer, entao a minha mae os vendia mais caro e sempre falava pra ele que queria mais de vareta japonesa, do que de vareta comum e ele concordava numa boa e sempre falava que os de vareta japonesa eram os melhores...
E em troca do trabalho dele, a minha mae pagava com o fumo e o fedor do fumo era muito forte, tao forte, que dava ate agonia, o marido da Diva, o seu Arconso ficava sentado ali na cadeirinha dele fumando esse tal fumo de corda, que era o que eu ia buscar la na pracinha pra minha mae e ele tambem tava fumando desse tal fumo de corda, porque era mais barato do que o cigarro e ele mesmo falava que preferia desse ai...
Hoje, a cadeirinha branca encontra - se ali, no mesmo lugar, parece ate que o seu Arconso vai sentar ali no mesmo local e acender o seu fumo e fumar... Fumar... Fumar... Fumar... So nao vem mais por conta do seu falecimento.
Mas, naquele tempo era assim... O veio que nao era muito velho sentava - se ali naquela cadeirinha branca, bem na sua garagem, e ficava la, olhando nao sei o que, vendo se eu pagava pau pro Sandro ou se eu via alguma menina nova descendo pra rua dele e ficava olhando, so pra falar pra todo mundo que eu era sapatao, era o minimo que ele devia fazer, nao e? Falar pra todo mundo, porque nao tinha o que fazer e nem o que falar de mim, chegava do trabalho e sentava - se ali e fumava... Fumava... O seu fumo de corda fedorento e o Miguel fazia o mesmo, a diferença era que ele ficava do lado de dentro e enrolava o fumo em papel, folha de caderno mesmo e bem dos cadernos que a minha mae comprava pra vender na lojinha...
E quando acabava o fumo, o Miguel ficava louco, queria porque queria esse tal fumo e eu me lembro que ele ficava falando, falando, falando, ate que a minha mae, sem paciencia, tirava o dinheirinho dela do bolso e me mandava buscar, às vezes eu ia na boca da noite la numa casa do norte que tinha la na pracinha redonda, no centro do bairro, que hoje e um posto policial, buscar o fumo dele logo, pra parar a falaçao e pra minha mae ficar bem mais sossegada...
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