domingo, 9 de janeiro de 2011

A minha tia Lourdes, segunda mulher dele, tomava quase vinte comprimidos pro coraçao, por dia, uma vez, ainda quando o meu tio tava internado, fomos la e a filha dela encheu a mao e nos mostrou triste o tanto de comprimidos que ela tinha que dar pra mae dela e a minha tia perguntou chateada se a minha mae ta vendo o quanto de remedio ela tinha que tomar e a minha mae viu e ficou admirada com a quantidade de remedios que a mulher tava tomando e a filha dela falou que repetindo tres vezes ao dia, como tinha que ser, ela tomava vinte comprimidos somando tudo.
E a minha mae falou que a quantidade que ela e meu pai tomavam juntos, nem isso somava... Isso porque o meu pai tomava aquele monte de remedios...
Um ano depois que meu tio morreu, ela tambem morreu, so que nem ficamos sabendo de nada, pra irmos e darmos um apoio aos meus primos que ficaram.
Essa minha tia, ja veio com filhos grandes pra casa do meu tio e teve mais quatro filhos com ele, forte, morena, de rosto cheio, bem parecida com a minha prima Sheila, que ta ate se parecendo com a mae dela, a genta fala com ela, parece ate que ta falando com a mae dela, de tao parecida que ela e.
E quando ficamos sabendo da morte do meu tio, a minha tia Clara ja tava la na casa da minha tia Helena, junto com o meu tio Daniel, a Marcinha com o marido e o meu primo Danielzinho.
Fomos ao enterro, la no cemiterio da Vila Formosa, que ate entao e considerado o maior da america latina e o meu tio foi enterrado la e um ano depois a minha tia Lourdes tambem foi enterrada la.
Tava meio frio naquele dia e eu vi os meus primos todos, os meus quatro primos, fora os filhos dela que ele ajudou a criar, todos em volta do caixao do meu tio, que tava ladeado de flores, muitas flores, e velou um pouco la na capela do cemiterio da Vila Formosa e ficamos um pouco la, enquanto tava velando.
E so assim eu tive oportunidade de ver os meus primos todos juntos, aquele meu primo Celio, filho do primeiro casamento dele, o descabeçado que nunca deu sorte na vida, tava la com os filhos dele e o Pedro Paulo que eu sempre achei o nome dele esquisito demais e eu sempre perguntei pra minha mae, se, alem dele, tinha mais gente que se chamava Pedro Paulo, e ele era o que tava um pouquinho melhor de situaçao.
Todo de jaqueta preta, nao sei se era pelo luto ou se era pelo frio, ele tava era bem mais gordinho, e a minha outra prima eu nao vi, nao sei se ela nao foi pro enterro do pai dela, pois ela era a pior de situaçao, apanhava de todos os maridos que ela arrumava, dizem as boas linguas que agora ela acertou, acabou arrumando um cara que e muito bom pra ela, e que tem ate casa propria...
E quando foram enterrar o meu tio, abriram o caixao dele, bem proximo ao tumulo que ele ia ser enterrado, pra darmos a ultima olhada naquele homem rustico e baixinho, as maos dele estavam duras, uma grudada na outra e falaram atras de mim, que quando a pessoa fica de semblante fechado e pesado e as maos duras e grudadas uma na outra, significa que a pessoa morreu sem vontade de morrer.
E eu deduzi que era isso mesmo, e fiquei com do, pois o homem falava mesmo que queria viver ate os cem anos de idade, e quando ele nao podia falar mais, ele escrevia tudo e escrevia inclusive que ele nao tinha doença ruim nao e que o problema dele era curavel e que ele ia viver ate 0s cem anos de idade, porque ele queria e porque Deus tambem queria que ele vivesse ate os cem anos de idade... Isso ele falou uma vez la na lojinha quando uma mulher comentou ao ver que ele tava com aquela sonda na garganta e ela falou que o parente dela nao se salvou e acabou morrendo de cancer na garganta e ele protestou, ate dava longas respiradas bem nervoso e pedia papel atraves de sinais e eu dava com uma caneta e ele escrevia isso pra mulher, ultimamente a letra dele tava muito feia e bem descoordenada, ate o dia que ele nao pode escrever mais, nunca mais... Tinha a idade do meu pai, na epoca, sessenta e dois anos, se foi, descansou e foi o primeiro irmao da minha mae, que se foi...

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