quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Vez por outra, eu ficava la do lado de fora conversando com as meninas, com a lojinha aberta, e ele passava todo lindo e faceiro, serio, na minha calçada, passava sempre com camisoes floridos, e ele tinha uma linda, cor de rosa, com flores grandes, daquelas que ficavam do lado de fora das suas maravilhosas calças jeans, tanto delave como de jeans mais escuros.
E quando eu nao estava la do lado de fora, vinha enchendo o saco das meninas que as vezes ficavam de campana por minha ordem, para ve - lo passar e descreve - lo todinho pra mim e quando eu chegava perto delas ja vinha perguntando bem assim: "O Deus... O Deus passou aqui?" Deus, porque eu imaginava que Deus era tao lindo quanto ele.
E as meninas caiam nas gargalhadas e eu acho, no minimo, que ele deveria perceber que eu ja gostava dele, mas... Fazer o que... Ele tinha namorada, ne?
E eu ficava ansiosa por cada dia corrente e quando ele nao passava na minha porta, eu ficava nervosa, ansiosa, uma vez a minha mae pediu pra eu abrir a loja e deixar as portas semi cerradas, pois o sol estava muito forte e ia estragar todos os doces que vendiamos na epoca...
E a Iris, que nao era muito bem vinda na loja, estava la comigo, mas naquela epoca ela ainda era bem vinda, porque tinha vez que ela se fazia de amiga, so pra colher informaçoes, no minimo e ver como eu era boba... E depois fazia inferninho comigo... Como o de sempre...
E ela, sentada de um lado, e eu do outro e ela gostava de um cara la que ela tava saindo com ele, cara porco... E ela toda suspirando pelo cara e eu mandava ela repetir o nome do cara e ela repetia com os olhos brilhantes e ela começou a me mandar a repetir o nome do Sandro e eu falava com amor e ela reparou nisso tambem e me falou que eu tambem ja estava gostando do Sandro...
E nisso, ela me deu um alerta... "Olha, voce ta vendo?" perguntou bem baixinho. "E ele quem ta passando, eu to conhecendo pelo tenis..." E falou que era um tal de Mizuno nao sei das quantas la e que aquele tenis era carissimo...
E eu, mais que depressa, dei um jeitinho brasileiro e passei bem de mansinho por debaixo daquela porta e o vi ate terminar de passar a rua toda, sentido ponto...
E eu suspirava por ele, so ele que nao percebia... Ou fazia de conta que nao percebia ou entao... Entao... Ele nao podia fazer nada... Mas... Fazia questao de me olhar para ver se eu estava olhando... E muitas das vezes eu saia na porta da loja somente pra pagar pau, como dizia na epoca... "pagar pau"... E ele ainda olhava pra tras e me pegava no pulo, com toda a certeza do mundo, que eu estava ainda olhando pra ele... Ate o final da rua...
A Iris naquela manha, ate que tava bonitinha, de jeans delave e uma blusa grossa de manga longa, tambem parecendo jeans de estampas e com aqueles cabelos horrosos soltos e brilhantes com oleo de cozinha, que era o que ela tinha pra passar porque ficava todo encaracoladinho... E eu perguntava varias vezes o que ela passava no cabelo e ela falava que era oleo de cozinha.
E a mae da Iris, a dona Nildinha, falecida desde 1992, sempre falava que quando a Iris tava na lojinha comigo, ela sempre ficava sossegada porque tinha certeza de que a Iris nao tava naquela vielinha com um monte de maloqueiros e nem tampouco por ai beijando os moleques como ela sempre fez...
E a minha mae ficava muito feliz em saber disso, pelas poucas vezes em que a mulher foi na lojinha conversar com a minha mae, ela sempre falava nisso...
E eu ficava chateada, e muito chateada... Chateada por tudo que ele tinha me feito passar e sera? Sera que ele sentia muito amor por mim? Ou sera que um dia ele chegaria a sentir amor por mim?

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